27 junho, 2012

Cansada demais até para pensar num título


Porque as vezes vem uma exaustão do peso do otimismo. Sim, porque pensar que as coisas vão melhorar, que todos gostam de você, que a calça tamanho 38 vai caber, que a criança da esquina não vai virar traficante em alguns anos, que algumas das pessoas que te cercam todos os dias são altamente confiáveis, que o pão ainda pode chegar quentinho em casa, que o vizinho vai sair de casa e não será assaltado, que os cachorros abandonados na rua não serão chutados por algum desalmado, não, não é fácil. Principalmente quando você vê o oposto de tudo isso: as coisas tendendo a piorar. A hipocrisia das pessoas que enchem a boca para falar do amor que sentem pelo próximo, mas na primeira oportunidade que tem se fazem de surdas para os problemas alheios; a calça 40 é a única que serve da loja inteira; ninguém apostava nada na criança da esquina que passa os dias brincando na rua e a única pessoa que apostou todas as fichas nela foi aquele rapaz que distribuía doces para a garotada e que agora dá dinheiro para ele ficar observando o movimento do local, com a promessa que um dia ele vai ser igualzinho ao herói da comunidade; o pão da padaria continua ruim e frio, sempre é o de ontem que sobrou por lá, porque falta prazer nas mãos daquele que amassa a massa; o vizinho saiu de casa e não foi assaltado, mas chutou o “cachorro idiota que não pára de latir” da porta da casa dele, sem nem ao menos ter o cuidado de olhar a razão daquilo tudo: um pequeno prego semi enfiado na pata do pobre bicho; e claro, o vizinho não foi assaltado, mas o pai dele foi, quando estava saindo do banco. É difícil acreditar no melhor quando tudo caminha na direção contrária. Não estou achando que porque tudo diz “não” deve –se desacreditar na humanidade, em mim, ou nada disso. Só queria deixar claro que estou cansada de carregar esse peso do otimismo sozinho e que eu já estou ficando com dores na coluna. E no fim das contas esse desabafo nem é para contar dessas dores e sim para deixar claro que eu não tenho mais disposição para fingir que elas não existem. 

"Os olhos mentem dia e noite a dor da gente"
(Teatro Mágico)



25 maio, 2012

Relato de uma vegetariana em crise alimentar

Para ouvir: I don't know what to do - Pete Yorn e Scarlett Johannson

Meu nome é Mariinha e eu sou uma vegetariana em declínio desde que comi carne a 6 semanas atrás
Um belo dia resolvi melhorar minha vida. Mudei meu cabelo, minhas roupas, meus livros, mudei de casa, mudei. E dentre todas as mudanças, vieram as mudanças no hábito alimentar. Resolvi ser vegetariana. E cortei a carne da minha vida.  Eu não deixei de comer carne porque era ruim. Tinha e tenho até hoje consciência que é muito bom. Tornei-me vegetariana porque achei que era uma alternativa mais saudável, que me traria bons frutos, que era a melhor opção no momento. E eu não achei que fosse fácil - no começo principalmente era quase insuportável - mas fui forte e cheguei num estado que (quase) acostumei meu corpo com isso. E nunca havia caído em tentação, até porque como já disse eu sempre fui sensata o suficiente pra recusar muitos convites para comer em locais que todos se comportariam como carnívoros e eu não tivesse opção de escolha.  Churrascaria? Você jamais me veria nem passando perto de uma, porque com o perdão do trocadilho, a carne é fraca. Até aquele dia. O dia que eu descobri uma churrascaria que realmente me agradava. Era um lugar aconchegante, parecia bom de se estar, divertido. Nunca havia entrado lá, só passava pela frente e observava como tudo parecia ser diferente de todos os outros lugares que já conhecia. Era tudo tão interessante por lá. O garçom num dia notou minha presença (hoje desconfio que ele tivesse notado antes, mas preferiu esperar para ter certeza que eu poderia ter algum interesse em aceitar a proposta que ele faria) chamou de canto e disse que eu deveria ir num determinado dia a noite para a churrascaria, que seria um dia muito especial com música ao vivo. E eu fui muito entusiasmada, certa de que não comeria nada, teria boas músicas, pessoas legais de se conversar e só. Uma amiga minha me alertou: "Mariinha, o que as pessoas vão fazer numa churrascaria é comer carne!!! Porque você realmente acredita que não vai ser isso que você vai fazer também?" E eu respondi que o garçom deve ter me chamado porque me via passando todos os dias por lá e porque teria música. Afinal, porque outro motivo ele me chamaria?  
Cheguei. Estava ansiosa para saber que ambiente me esperava e pela recepção que tive, vi que não estava enganada: aquele realmente era um lugar diferente dos outros. Fui me deslumbrando com cada mínimo detalhe e achando que provavelmente acharia alguma opção sem (muito) álcool pra beber, arroz, salada  talvez até soja por ali. Sentei e esperei ouvindo a tal música ao vivo, que por sinal foi outra diferente da que o garçom havia me prometido. Qual não foi minha surpresa ao ver num cartaz que aquela era a noite do “Coma quanta carne quanto puder” e todas as opções de comida além de carne foram retiradas das bandejas.  Menos de 5 minutos depois dessa constatação o garçom me recepcionou e colocou churrasco na minha frente. Olhei para a carne e fingi indiferença ao fato dela estar ali, pensei comigo mesmo “já tenho quase um ano sem comer isso, deve ter um gosto horrível”. 10 minutos depois o cheiro do prato já estava quase me conquistando, 15 minutos e eu já estava pensando que talvez um pedaço não me fizesse tão mal e mais 20 minutos depois já tinha certeza que se eu não a comesse, ela me comeria. Fugi daquele ambiente decidida a não voltar lá nunca mais na vida. Mas, assim “nunca” é uma palavra que eu não gosto de usar e muito menos de praticar a ideia por trás dela, então alguns meses depois eu voltei a passar pela frente de lá. Mas, só isso. Não entrava nunca. Quando o garçom me chamava, marcava um compromisso na mesma data, no mesmo horário. E o pior foi a falta de apoio dos meus amigos, que faziam questão de me dizer - sem nunca terem colocado os pés no local - que aquela churrascaria era incrível, que estava perdendo a chance da minha vida de saborear uma carne excelente, que não me faria mal. Mas, eu sempre pensava "vale a pena quebrar meu jejum de tanto tempo sem comer carne?". As vezes eu lembrava que ainda não havia explicado pra o garçom o porque da minha fuga naquela noite e nem achava que eu deveria dizer isso. Entenda, na sociedade em que vivo, sou vista como uma pessoa anormal, que estou perdendo o melhor da vida, que não sei aproveitar as coisas boas, que tem mau gosto, enfim, sou bastante incompreendida por não querer aquilo que é tão amado por todos os outros mortais. Logo, conhecendo essa realidade, não contei quem eu era e preferi deixar subentendido.
Meses se passaram e essa vida de ficar passando frente a churrascaria deixou de fazer parte da minha rotina. Foram meses muito felizes, em que eu quase esqueci o incidente ocorrido. Quase. Em pouco tempo, tudo ao meu redor mudou e de alguma forma quase incrível voltei a colocar a churrascaria como parte do meu trajeto de todas as semanas e temi pelo dia que teria que almoçar nela. Não demorou pra esse dia ocorrer. Era a segunda vez que veria o garçom depois do dia do "Coma quanta carne puder". Quando adentrei no espaço e vi o tal garçom só pensava "não me ofereça carne, não me ofereça carne, não me ofereça carne!". Ele me tratou como trataria qualquer cliente e eu fui me servir, com aquilo que esperava comer na primeira vez que fui lá: salada de legumes, salada de grãos, salada de folhas, arroz e quiche de soja. Li um bom livro, o garçom me ofereceu um copo de suco, conheci umas outras pessoas naquele dia e foi uma tarde muito agradável. Desde então comecei a frequentar mais a churrascaria e aquele garçom uma vez me falou que havia notado que por algum motivo eu era diferente de todos os outros clientes que passavam por lá. Talvez porque eu sempre recusava o prato mais pedido do local, não é mesmo. E eu sempre me perguntando o porque de não explicar para o garçom o que havia ocorrido meses atrás. 
Você já deve estar se perguntando onde essa história vai chegar. Porque até agora nada fez muito sentido até aqui, uma agonia toda por causa de um restaurante que vende carne e o fato de eu ser vegetariana. Hoje, vendo externamente fico me perguntando o porquê disso tudo também. Poderia ter só mudado de restaurante, levado meu almoço pra o trabalho, feito qualquer coisa. Mas, eu já disse mais de uma vez que eu gostava de estar lá, que eu fazia de lá casa e que por mais estranho que isso soe, as vezes tinha a sensação de que não existia nenhum outro restaurante que pudesse ser igual àquele. Entenda que esse parágrafo não serve para contar nada da história, serve apenas para eu tentar justificar o que me levou a criar toda essa situação insana fundamentada em nada. 
Quando eu comecei a achar que todo meu problema fundado na areia já tinha alcançado um grau de estabilidade tão alto que já beirava a solução, um dia em que eu entrei na tal churrascaria só para beber , observar o movimento, trocar ideias com Enrico (vamos nomear o garçom, porque nesse ponto da história ele deixa de ser apenas garçom para se tornar amigo) e me distrair, Enrico aparece com meu prato pronto. Sem carnes. Diz que hoje é por conta dele. Me olha com ar de incerteza e me pergunta o que houve na primeira vez que fui a churrascaria. Relutei em contar, mas ele tinha ar de compreensão e eu terminei contando do meu vegetarianismo. E ele afirmou que já desconfiava. E disse que nunca mais me ofereceria carne se eu não manifestasse interesse, para não me constranger nem tentar destruir minha dieta. Sorri. Percebi naquele instante que Enrico era um garçom raro. Tinha certeza que minhas idas as churrascarias não seriam mais as mesmas agora.
E a história poderia terminar aqui. Mas não faria sentido eu contar toda essa história se não houvesse mais nada.  Resumindo bastante a história, minha amizade com Enrico foi fazendo com que  ao menos uma vez na semana, geralmente as sextas eu ficasse muito tempo na churrascaria. Não apenas na hora do almoço, ficava lá horas observando os churrasqueiros, os clientes, os outros garçons,  tudo. Via as carnes, sentia o cheiro delas, quase poderia dizer o sabor que tinha. Mas, no fim das contas eu pensava " não vale a pena, não vale a pena. Foco na dieta." e ignorava a presença do churrasco na minha frente. Até que um dia meu juízo saiu do lugar e eu resolvi que ficaria até de noite na churrascaria. E sem me alimentar dos meus vegetais. E só eu, os churrasqueiros, Enrico e a carne. Não havia nenhuma salada que me enchesse os olhos. Eu só pensava em como fugir da carne. E chegou o momento do jantar de Enrico e eu sentia que meu estômago poderia ser corroído com o suco gástrico. (A sensação era parecida com as borboletas serelepes, mas isso é outra história) E por dois minutos quando vi meu amigo começar a ter intenção de comer, me perguntei o porque mesmo que eu havia feito a decisão por só comer vegetais, porque eu achava que não valeria a pena. E nenhuma resposta veio a minha mente, talvez porque na hora eu não tivesse nenhuma, talvez porque eu não havia pensado em nada.  E Enrico parecia que havia lido meus pensamentos e sem trocar uma palavra serviu meu prato exatamente igual ao dele. E eu não preciso detalhar o que ocorreu depois disso, acho que está meio óbvio sem que eu precise descrever cheiro, sabor e textura de nada. E essa foi a história de todo processo da minha quebra de abstinência de carne. Meu nome é Mariinha, sou uma vegetariana em ascensão e não como carne a 6 semanas.

Esse é um texto de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. E pra variar, o texto não faz total sentido, mas Mariinha já se acostumou a nunca fazer sentido nos meus contos. E não leve a sério as informações ditas aqui, por favor!!!  E se você chegou até aqui, considere a possibilidade de ouvir a música indicada lá na primeira linha , olhar a letra e a tradução da mesma

08 abril, 2012

Tiê, paixão e patologia - I

" Um carinho envolve o meu coração
Sinto que é você
Falando pra mim
Sussurrando, quente entre os dentes
Letras tão gentis
Até vou acordar, pra não esquecer
Palavras
Que eu sei de cor por ter você"
Tiê - Te mereço

Dia desses, decidi que iria banir a moça da voz triste da minha playlist. Moça da voz triste, mas que é linda assim mesmo. Que não só canta, que encanta junto. E esse é o problema. As músicas de Tiê tem uma relação de amor e ódio com a "platonicidade"  que há no meu imaginário (platônico e imaginário podem parecer redundante, mas não é) e que surtem um efeito um tanto quanto patológico. Ela não é a única responsável, mas como tenho que arranjar um culpado inicial, decidi que as músicas serão as iniciadoras da doença. E claro, há toda uma explicação lógica (ou não) para isso e é justamente isso que eu vou (tentar) explicar, com uma historinha inventada por mim, mas que lá no fundo tem seu fundo de verdade.


O início de tudo: 
Mariinha* ouve a música. Aleatoriamente, digamos que ela escolha uma que fale isso: "O meu desejo sempre foi contracenar um longo filme de amor, mas não vou legendar o seu olhar focado em mim, direto assim". Bem aleatória a escolha. Daí a letra começa a mexer com o imaginário dela. E começa a criar coisas no seu imaginário. E a música passa pelos ouvidos , atravessa a trompa de Eustáquio e chega na garganta. Lá encontra um nó (que originalmente foi formado pelas coisas criadas no imaginário), que insiste em se desmanchar em mil lágrimas e na tentativa de disfarçar a agonia, Mariinha "engole o choro" e vai junto a música , passando pelo esôfago, chegando no estômago. Você sabe o que ocorre quando se mistura "nó da garganta" e letras emotivas numa região ácida como o TGI ? Reagem entre si e criam lagartas. Não uma espécie comum, são lagartas... especiais. 

Da metamorfose a reação a imune.
Essas lagartas ficam lá quietas, esperando o momento propício para criar asas e voar, literalmente falando. Se elas ficarem muito tempo por lá, o sistema imune inato conseguiria reconhecer o corpo estranho e destruí-lo e tudo poderia continuar como antes. Mas, digamos que se ouça a música todos os dias, claro que o número de lagartas no estômago será enorme e possivelmente dará muito trabalho para acabar com todas elas. Enfim, continuando com a suposição, digamos que a música seja ouvida na terça e na quarta. Na sexta, um dia total e completamente aleatório, os olhos de Mariinha veem algo que faz com que o nível de estresse dela aumente e causa a ela uma taquicardia repentina. As lagartas entendem que esse é o primeiro sinal e  esperam já a postos para o momento da metarmofose. Já disse que elas não eram lagartas comuns. Assim que o objeto de visão de Mariinha fizer qualquer "coisa" na direção da pessoa aleatória como por exemplo, falar "oi", acenar, piscar, pisar no pé, ou apenas olhar para ela mesmo que sem querer a metarmofose ocorre e tudo que era lagarta se transforma em borboletas, que desandam a andar para cima e para baixo por dentro da barriga dela. Se o tal objeto de visão de Mariinha, a razão do afeto dela, aquele que atende pelo nome de Enrico*, aproximar-se dela, as borboletas ficam mais serelepes ainda e o organismo dela começa a reconhecer as tais borboletas serelepes como "serelepes exógenos" e na mesma hora o sistema imune inato começa a despertar e a resposta inflamatória começa. Quanto mais Enrico movimenta-se, fala e fala tocando nas mãos dela, mais aguda vai ficando a resposta. A pele de Mariinha já está totalmente ruborizada e ela já se sente capaz de derreter plástico, de tão quente que está sua temperatura corpórea. Ela fala disparadamente, torna-se praticamente a "garota sem vírgulas", compulsivamente tentando mascarar a guerra que ocorre internamente. Quando a situação parece controlada, as borboletas já inexistem e a conversa entre os dois - sobre os métodos tradicionais e não eficazes de ensino e avaliação das crianças da terra do nunca - já está fluindo quase normalmente, Enrico encosta "total e completamente sem querer" suas mãos nas delas  e aproxima-se mais do que deveria, ainda despretensiosamente e aí...

Poderia dizer que eu parei por aí porque realmente queria fazer um suspense, mas não é por isso. Eu simples e puramente estou com a mente esgotada para escrever no que irá acontecer com Mariinha após a próxima ação de Enrico, apesar de estar com algo em mente. Para não estragar o que eu estou achando muito bom - nem é pela qualidade do texto e sim pela distração que ele foi nesses dias -  decidi parar por aqui. Se o que vier em seguida não ficar de um tamanho suficiente para um texto, faço um update nesse texto depois. Esse texto é uma obra de ficção e não deve ser levado (muito) a sério. Os nomes foram escolhidos aleatoriamente, Mariinha já é personagem de mil histórias do blog e ela é ótima, porque se adequa a todas as realidades que os textos conduzem (aí começam a achar que eu sou louca, porque estou falando de um personagem como se ela existisse e vivesse cada história que eu escrevo). E Enrico... bem, Enrico é Enrico. Um nome ""aleatório"" que surgiu e que eu acho que soa legal nas histórias. Presumo que esse italiano/descendente de italianos - ainda não decidi - apareça mais vezes aqui (já apareceu dia desses, numa conversa com Alice, no post passado).

06 abril, 2012

Enrico, tô chata hoje. Chata num nível não quero fazer nada além de ficar deitada na cama chorando. Peguei um monte de papel velho, cheio de planos e pensamentos e angústias e anseios e coisas do tipo, antigos e não tão antigos e eles me fizeram pensar sobre as coisas que eu andava querendo, que eu achei que queria,  sobre as coisas que eu realmente quero e minha habilidade (ou falta de) em mudar de ideia. Enfim, tô chata. Vou ali estudar pra imaginar que isso vai me dar futuro, dinheiro pra pagar as contas, rede na sala de casa, uma estante de livros, uma cachorra e uma gatinha, habilidade para fazer desenhos para crianças, paciência, um oxford floral, mais dinheiro para uma escola para minhas crianças, uma horta de produtos orgânicos pra elas também, um esmalte craquelado, conhecimento pra mudar alguma coisa no mundo e quiçá me ajudar a encontrar uma pessoa que eu admire tanto que eu queira passar o resto da minha vida com ela e juntos vamos colocar novos seres no mundo e adotar alguns outros seres que já estarão no mundo.

Saudades

Alice

29 fevereiro, 2012

Eu fingi que não ia escrever

sobre isso.
Porque eu não sei sobre o que escrever. Minhas memórias estão desaparecendo e eu não tenho a mínima ideia sobre o que eu vou registrar aqui. Sei sobre o que quero falar, não sei como fazê-lo. E não sei tanto como fazer isso que estou digitando essa introdução toda numa velocidade altíssima, como se eu estivesse aflita. E estou. Aflita por não saber o que colocar aqui, porque sei que palavra alguma trasncreve o que estou pensando. E as coisas que eu penso no momento tem tantas carcterísticas: tem cheiro, tem cor, tem vozes, tem tato. E eu poderia falar sobre qualquer uma dessas coisas, mas não consigo. Não sai nenhuma palavra que tenha a ver com que o que eu quero deixar registrado aqui. A felicidade é tanta que nem cabe nas palavras. E eu fingi que saberia descrever tudo aqui, eu fingi que tudo era tão bobo que em duas ou três frases exclamativas eu conseguiria resumir tudo, eu fingi que conseguiria falar sobre tudo sem sem revirar de um lado a outro lembrando de tudo e esquecendo do resto. A única coisa que eu não fingi foi minha incapacidade de escrever sobre isso.

17 fevereiro, 2012

Em outubro

26 de outubro
é só pra me lembrar que essa hora eu estou desesperando-me com algum problema qualquer pra esquecer que você deve estar chegando na estação agora. Ou que esteja dirigindo agora. Acordei pensando nisso e decidi ir a uma livraria. Li três livros odiosos, mas ocupei meu dia. Por isso que estou contando os biscoitos mofados que estão na lata, reorganizando as agendas velhas de anos passados, assistindo o jornal que é tedioso, ouvindo músicas que são detestáveis. E esperando que a porta se abra, que a janela se abra, que os sinos toquem e a felicidade retorne. Mesmo sabendo que isso não ocorrerá. E eu não estou sendo vidente, estou sendo óbvia. Diferente de mim, você não faz as coisas pela metade.
É que você não ficou, e eu ainda quero saber quem ganha com isso: eu ou você.


De todos os outubros da vida, não me recordo de nenhum que eu tenha escrito esse texto. Provavelmente baseado no outubro dos outros. 

12 fevereiro, 2012

Originalmente sono.

De vez em quando eu sonho alto - muito alto mesmo, ao ponto de sentir vertigem - e me pergunto se é possível.
E se não for, vai fazer tanta falta ?

E se eu alimentar o sonho, ele vai crescer mais forte?
E se eu deixar ele morrer, ele vai voltar a noite para me assombrar?
E se ele destruir o que eu já tenho, será que eu vou recuar?
E se ele machucar quem eu cuido, será que isso me fere também?
E se eu não gostar do sonho quando tiver ao alcance, será que sobra refúgio para que eu não fique só ?
E se ele ganhar vida própria e sonhar comigo?
E se eu acordar e descobrir que a possibilidade de sonhar é só um sonho?

07 fevereiro, 2012

A mudança

Tinhamos encontro marcado, ao menos uma vez por mês. Eram perfeitos enquanto duravam. Depois que eu saía dali, voltava a ser quem eu era. Quem eu fingia ser. Mesmo depois do que ocorreu, ainda não sei se quem eu sou de verdade era aquele eu que ficou com ela, ou esse daqui, que escreve agora.
Tudo mudou bastante nos últimos 15 minutos.
Eu a encontrei, depois de uma semana. Estava como sempre me atraindo. E eu fui. E foram 8 minutos felizes. 10 minutos. E aí, nos 12 minutos eu percebi. Diferente de mim, que estava com os olhos vidrados nela, como se ela pudesse desaparecer como fumaça, ela naquele momento abaixou a cabeça. Fiz com que ela me olhasse. Não encontrei nada. Não estavam brilhando como quando cheguei. O que eu vi não me atraía. Vi dor. Vi lágrimas rolando na sua face. Vi um pedido de ajuda. Vi que se ela tivesse escolha, não estaria ali. Se ela tivesse escolha, pediria para não nascer. Se eu e todo mundo não estivesse ajudando a roubar as escolhar dela. Demorei três anos para perceber que me alimentava da falta de amor próprio que ela tinha. E aos 14 minutos, saí dali com a certeza de que eu não a prendo mais. Por mais egoísta e absurdo que soe, sinto que o alforriado do dia não é ela; sou eu. Fui embora sem dizer adeus, apesar de que no fundo ela acha que eu vou voltar. Eu também acho isso bem provável, mas irei resistir para não vê-la mais nunca. Sei que no fundo ela vai fazer falta. No fim das contas, a falta dela vai me fazer bem.
Vi uma coisa, ouvi umas duas frases e imaginei a história acima.


26 janeiro, 2012

Que é pra ver se você fica - II

Moço, eu estou escrevendo para você e eu prometi que para você eu nunca escreveria. Você sabe, eu escrevo quando me sinto sufocada. E com você eu não sinto isso, pelo contrário, sinto-me tão livre que tenho medo de me enrolar com tanta corda que você me dá. Não faz nenhum sentido, não é moço ? Não disse que faria. O que me fez ter certeza que eu precisava escrever para você, foi algo que ocorreu a pouco.  É que ontem a noite vi uma atualização numa rede social qualquer e vi seu nome na tela do meu computador iniciando a amizade com qualquer pessoa  mulher bonita que provavelmente você conheceu de forma aleatória na rua enquanto ela tropeçava em você e depois saíram para jantar e tornaram-se amigos, ou talvez ela seja só sua prima, ou sua colega de infância, tanto faz.  Só sei que o monstrinho ciumento que há dentro de mim gritou, afiou as garras e na mesma hora eu tive vontade de atravessar as barreiras entre entre o virtual e o real e criar um obstáculo entre você e ela e gritar “É MEU!” - mesmo sabendo que isso é uma mentira. Eu sei que você não é meu, mas isso não me dá a garantia que não pertence a outra pessoa. Às vezes durante o dia eu nem lembro da sua existência, mas chega a noite, o subconsciente me trai e adivinha quem me tira para dançar no mesmo sonho toda noite ? Na semana passada reencontrei antigos conhecidos, que não hesitaram em perguntar por você. Queria saber, moço, quem foi que iludiu todo mundo com a idéia que eu e você nos transformamos em “nós”. E eu desconverso, já que sei tanto quanto elas sobre você. Eu realmente queria ter alguma idéia em que universo distante você se encontra agora que não nos encontramos mais. Moço, outra coisa que me intriga é como é que todo mundo que me conhece sabe de você. Não é possível que eu fale tanto de você assim para os outros. Talvez eu tenha mencionado você algum dia aleatório, ou tenha desmarcado algum compromisso para sair com você, ou cheguei na casa de alguém com as flores que você me deu, ou atendi o celular na frente de todo mundo quando você me ligou e fiquei sorrindo abobalhada, ou talvez quando estava  comendo pudim tenha lembrado que você gosta bastante disso. Devo ter mencionado você com certa frequência em dias aleatórios. De vez em quando eu lembro de algumas coisas, só para ter certeza que você não foi uma imaginação da minha mente. Releio as cartas, os emails e os bilhetes. Fico me perguntando por que não temos fotos juntos. Ah, e os sms. Mesmo aqueles da operadora que só foram para avisar que você ligou. Todo o dia eu prometo que não vou pensar em você, não vou lembrar de você, não vou pensar... e quando eu vejo já estou quebrando todas as promessas, e fico imaginando você voltando e dizendo que é para sempre. Porque eu sei que você volta, você sempre volta - apesar de que as vezes eu tenho a impressão que um dia você não se cansa e não volta mais. Olha moço, por favor me explica porque nossa história tem que ser fragmentada e a gente não decide se caminhamos ou se damos um nó na ponta e paramos a história por ai. Sempre ocorre da mesma forma, você manda flores e diz até amanhã e ocorre um imprevisto e três meses depois minha vizinha pariu a criança prematura e eu ainda não tenho notícias suas além de um cartão de ano novo, depois você volta, me conta o que aconteceu nos 3 meses e diz que sentiu saudades. E depois de segurarmos as mãos, você larga e recomeça o ciclo. Entenda, que eu quero estar junto, mas quero por inteiro, quero de vez, quero que deixe de ser pela metade, que as coisas pelo meio não me preenchem quero de uma forma tão urgente que sinto os meu corpo se contrair de tanto querer, como criança fazendo birra para ganhar atenção. E eu digo que quero logo, mas tanto faz se vai ser amanhã, depois ou quando os ossos já estiverem virando pó. Tenho achado muita coisa ruim ultimamente, inclusive essa carta que está recheado de informações desconexas, que me faz lembrar que antes de você eu era tão pés no chão, tão metódica. E que depois de você, tudo se divide em sufoco, em urgências, em atos impensados, em fugas de madrugada. Queria saber até onde eu gosto dessa mudança. E em você, o que mudou ? E o que você gosta ? Qual a paisagem que você vê agora?  Moço, responde alguma coisa, que só o que eu tenho ouvido é seu silêncio e quando você está quieto eu me aquieto também, e tanta quietude me incomoda. Moço, faz alguma coisa que me indique se você está perto ou longe, se você ainda volta, se você ainda se importa, se quando as pessoas te olham elas me vêem em você ou elas só enxergam sua cara amassada sem dormir a dois dias. Sinto a garganta queimando do choro reprimido, e um nó que sobe e desce querendo se desfazer em soluços, só de pensar nas respostas que virão. Nunca imaginei que diria isso, mas se quiser ir embora, vai de vez. Não volta mais não. Não dá esperança mais não. Só avisa que vai embora, para eu parar de esperar. Vai ser um estado temporário de sofrimento, vai ser quase um início de loucura pelo término desse vício, eu sei. Todavia, passará. Esperar que é a dor que não passa nunca; só evolui para um desespero. E tão desesperada eu quebrei a promessa de te escrever cartas.

Esse é daqueles textos que eu começo quando escrevo trechos aleatórios no word e vou preenchendo esses trechos até eles formarem um texto com algum sentido. O que não significa que eles realmente tenham algum sentido.

20 janeiro, 2012

Namore uma garota que faz Farmácia

Namore uma garota que gasta seu dinheiro em xerox de apostilas, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque têm papéis, cadernos e livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de nomes de ossos e músculos que tem que gravar aprender e que possui desenhos de laminas da aula de histologia espalhadas por todo canto. Encontre uma garota que faz Farmácia. Você sabe que ela faz esse curso porque ela sempre vai ter um exercício de química orgânica resolvido pela metade na bolsa, ou uma tabela periódica bem gasta que ela usa desde que iniciou o curso, mesmo já sabendo de cor a maior parte das informações que necessita, ou não. Ela é aquela que olha amorosamente para as bancadas do laboratório, a única que surta de alegria (ainda que em silêncio, como se aquele momento fosse um evento comum) quando não passa do ponto de viragem na titulação. Você está vendo uma garota estranha lendo bulas de medicamentos com um cuidado especial ? Essa é a futura farmacêutica. Nunca resiste a tentar desvendar quais substancias químicas foram usadas para criação do fármaco. Ela é a garota que estuda Química Orgânica II (ou a I ou a II, ou III ou a IV. É tudo complicado do mesmo jeito), enquanto espera qualquer coisa, em qualquer lugar. Não interessa se é a fila do banco, se é o noivado da prima ou o engarrafamento quilométrico; se a futura farmacêutica não está estudando, ela está se remoendo por dentro por estar perdendo a oportunidade de estudar e de garantir que ela não vai sofrer duas vezes com as matérias penosas do curso. Ah, outra forma de localizar uma garota que estuda Farmácia é verificar numa praça de alimentação, se a garota está bebendo alguma coisa. Está ? É café ? Se você espiar sua xícara, verá que o café está quase no fim, pois muito provavelmente ela deve ser daquelas pessoas viciadas em cafeína para manter-se acordada nas madrugadas estudando freneticamente matérias como farmacologia, farmacodinâmica, farmacotécnica, microbiologia, imunologia, química farmacêutica, farmácia clínica. Tudo isso distribuídos em cinco longos anos, no mínimo. Por isso a cafeína é muito importante na vida da futura farmacêutica. Ela nem irá notar sua presença caso esteja estudando; ela pode estar perdida em um mundo de nomes estranhos de fármacos, analisando seus mecanismos de ação no organismo e suas ligações no sítio de ação e naquele momento nada é mais importante que aquele caderno que ela está lendo. Sente-se numa mesa próxima. Observe como ela fala sozinha, revira os olhos e fica impaciente com o que ela escreve e apaga em seguida. Talvez ela já esteja te vendo, contudo não vai dar a mínima; a maior parte das garotas que estudam Farmácia não gostam de ser interrompidas no meio de um raciocínio a não ser que realmente valha a pena olhar para você, claro. Pode se aproximar agora, se ela já te notou. Puxe conversa, com uma frase do tipo "Cheguei na farmácia e vi que eles comercializavam sorvete. Achei um absurdo! Farmácia é estabelecimento de saúde!." Na mesma hora tenha certeza que ela vai parar de estudar, pois se tem uma coisa que a futura farmacêutica gosta de fazer é zelar pelo seu futuro local de trabalho, e ela vai te dar toda a atenção do mundo. Aproveite esse momento, converse com ela e compre outra xícara de café, ela deve estar precisando. Nos próximos encontros, além das trivialidades da vida, mostre que você é diferente. Diga o que realmente pensa sobre proibição da venda de antibióticos sem receita médica. Descubra se ela fez o caderno de botânica, o de parasitologia, o de histologia. Entenda que, se ela diz que compreendeu a utilidade de estudar Matemática no curso, é só para parecer inteligente. Convide - a para sair e de preferência pague para ela, estudantes de farmácia gastam muito muito muito dinheiro com xerox, e ela vai dar prioridade aos estudos e não as saídas com você. Pergunte se ela gostaria de trabalhar com Análises Clínicas ou numa indústria. Diga que acha a Farmácia Hospitalar algo de suma importância e que o farmacêutico deveria ter presença obrigatória nesses estabalecimentos; nesse momento da conversa os olhos dela irão brilhar, afinal ela está na frente de alguém que compreende seu universo. Você está prestes a dar o primeiro passo para entrar na vida dela. É fácil namorar uma garota que faz Farmácia. Ofereça jalecos bordados no aniversário dela, materiais de análise laboratorial no Natal e livros de Orgânica em comemorações de namoro. Mostre que você compreende a futura profissão dela e não tome medicamento sem prescrição. Deixe que ela saiba que você agora exige ser atendido por um farmacêutico nas drogarias. Entenda que ela vai querer saber como você descarta seus medicamentos e sempre vai te orientar (com toda calma e paciencia que uma estudante de farmácia tem) a fazer o descarte correto. E sim, ela vai falar sobre isso a qualquer momento, com qualquer pessoa, independente de ser você, o vizinho, o médico ou sua tia-avó que tem 95 anos e já está perdendo a lucidez. As garotas que fazem Farmácia sabem que as pessoas, acham que elas serão futuras balconistas de drogaria. Mostre para ela sua indignação sobre esse fato, diga que você sabe que ela é muito importante para o paciente e por fim diga que o salário do farmacêutico está muito abaixo do que eles realmente merecem - e ganhará seu amor eterno. Se você encontrar uma garota que faz Farmácia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e batendo a cabeça na mesa por não conseguir fazer os cálculos de Analítica II, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas enquanto estuda, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se os compostos que contém carbono fossem reais inimigos – até porque, na maioria das provas eles serão. Você tem de se declarar a ela as escondidas no laboratório, quando ela estiver na aula de bromatologia, estudando a ação da bromelina na quebra das proteínas. Ou durante a prática de parasitologia dela, quando ela tiver acabado de ver um Trypanosoma cruzi ou um Schistosoma mansoni. Talvez no momento da decocção, na aula de farmacognosia. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente, você pode escrever na receita do medicamento manipulado que ela irá tomar. Ou pessoalmente mesmo. Você vai sorrir perto dela tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito e ela calmamente explicará que isso não é possível e te dará uma aula sobre a fisiologia do sistema cardiovascular. Vocês escreverão a história das suas vidas, e ela sempre irá sugerir que as crianças que virão tenham nomes de elementos químicos ou nomes genéricos. Ela vai apresentar os seus filhos a Amoxicilina e ao Ácido acetilsalicílico provavelmente no mesmo ano. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela cuidará do seu sistema imunológico com todo o cuidado para preservar sua saúde. Mas, lembre – se: ela é pessoa que melhor sabe qual dose é veneno e qual é medicamento. Não desperte a sua ira ou você correrá o risco de também aprender qual a diferença - só que da pior forma possível. Namore uma garota que faz Farmácia porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais livre de doenças que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser cada dia desbravar um novo mundo de conhecimentos, namore uma garota que faz Farmácia.
 Ou, melhor ainda, namore uma garota que faz farmácia na UFBA! 
Uma versão não muito boa (péssima) desse texto aqui, feito num momento de falsa ociosidade. Ele estava guardado há uns dois meses no computador e como hoje é o dia do farmacêutico, decidi que hoje era um bom dia para publicá-lo.