26 agosto, 2013

sobre comportas


Se antes fosse pensado nisso, haveria menos maré cheia nos olhos e enchente cessaria. Se as comportas já não comportam e a cidade veio abaixo, sossega menina. Deixa estar, que se foram embora pouco mais de uma centena, 365 virão ainda. E se a maré destruiu a cidade, que o primeiro construtor tenha audácia de aparecer e começar o trabalho. O primeiro incentiva o segundo e o terceiro. E se o décimo errar o trabalho, o primeiro volta para consertar. Sossega menina, que quando o 364º construtor chegar o concreto já vai estar enxuto, a comporta estará pronta e olha, maré alta ou maré baixa  tudo fica em sua lugar. Aquieta menina e vai buscar o segundo construtor, que o primeiro já foi embora.

01 agosto, 2013

Dia 37 - Sobre ser morada

Eu nem tinha ido dormir e soube que minha mãe estava interfonando para me visitar. Visitas da minha mãe nem sempre eram ruins, apenas quando ela decidia que deveria cuidar de mim, coisa que ela está uns 30 anos atrasada em fazer, mas é uma situação que eu aprendi a contornar. Ela subiu, entrou no apartamento, conversamos um pouco, ela me contou um sobre o câncer terminal da vizinhas e assuntos desse nível de tristeza. Típico da minha mãe. Disse que iria no meu quarto, pra guardar os documentos que eu tinha pedido que ela trouxesse. Disse que podia deixar na mesa, mas ela insistiu em guardar no armário, entro do quarto. Paciência. Pensei em voltar aos meus afazeres até que ouvi minha mãe gritando "VOCÊ ESTÁ NAMORANDO E NÃO ME FALOU NADA??" Gritei no mesmo tom urgente "NÃO, NÃO ESTOU NAMORANDO!". Ela ficou em silêncio do outro lado e de repente surgiu do meu lado com um sutiã branco com ovelhinhas estampadas e só me disse "Isso é resquício de um caso rápido do fim de semana então?" Minha mãe queria demonstrar reprovação, mas via a cara dela de que estava empolgada com a perspectiva do filho dela ter uma possibilidade de casamento, já que eu nunca fui dado a namoros e ela cogitou mil vezes que eu fosse gay, até Andreia aparecer e ficarmos 7 anos juntos. Isso não vem ao caso, mas eu sei que minha mãe não quer que eu faça uma segunda graduação, ela quer que eu faça um filho e uma família e aquele sutiã significava muito mais para ela do que deveria.
Até que eu gostaria que significasse para mim também, mas não.
Era só mais uma arte de Cecilia.

...
 6 dias antes, encontrei Cecília almoçando na universidade. Almoçando brigadeiro, porque comida saudável não faz bem na TPM, segundo ela repete.( Cecília vive na TPM, pelo que eu pude perceber. ). Estava com duas malas enormes, disse que no dia anterior tinha dormido na sala do centro acadêmico, porque o conjugado que ela mora está em reforma por causa de uma infiltração. Eu nem precisei oferecer o teto, ela mesma me perguntou se eu não queria alugar um quarto na minha casa. Disse que iria pensar e que depois respondia. Dois minutos depois estava levando a mala dela pra um táxi e indicando onde ele deveria deixar.

...
No segundo dia de Cecília na minha casa, ainda não tinha me acostumado com a ideia dela estar a um quarto de distancia de mim, de nos esbarrarmos pela casa o dia todo e do fato dela espirrar cada vez que passa por mim depois da loção pós barba, que ela descobriu-se alérgica  Incrível como ela tinha certeza que a minha casa é tão dela quanto minha. Meu banheiro virou um closet para ela. Meu quarto, virou um lugar de estudo. O chão da minha sala, o lugar das refeições.
No terceiro dia dela na minha casa, já estava pensando em qual café da manhã ela iria gostar mais e cogitando comprar aqueles queijos sem gosto que ela adora.
No quarto dia, estava me perguntando como poderia voltar a dormir em paz se ela não estivesse acariciando minha barba enquanto assiste a novela e fala do cara que conheceu hoje e que pediu o celular dela. Desde que a conheço, deve ter sido o terceiro, se me incluir na lista.
O quinto dia, acordei e era sábado e ela tentou fazer o almoço, que ela não aguentava mais saber que eu só almoçava macarrão quando estava em casa. E ela fez saladas, molhos e um arroz cheio de coisas que eu nem sei dizer se estava bom, mas sei que era melhor que meu macarrão. E vê-la dançando enquanto cozinha pagava qualquer resquício de gosto de detergente que eu sentia no suco de maracujá. Porque tinha refrigerante, mas Cecília fica me explicando que não é saudável e quer proibir o mundo de beber refrigerante. E eu me deixo ser convencido por ela, até porque, não consigo achar motivo pra discordar do que ela argumenta. E assim, acaba a carne gordurosa, o macarrão com queijo ralado e o refrigerante do meu sábado. A única coisa ruim do quinto dia, foi descobrir que ela iria embora no sexto. 
O sexto dia começou cedo pra ela, que inventou de sair cedo de casa, junto comigo quando eu fosse  buscar minha mãe na rodoviária. Acordou duas horas antes e era só perguntas de onde estavam as coisas dela. E gritava de um lado pra outro. E quando eu saí do quarto, me deparo com Cecília vestida com a calça jeans e o sutiã de ovelha. Ela era o tipo de mulher que usava aquilo. E se ela estava usando aquilo na minha frente, já me perguntava se eu já podia desistir de um envolvimento romantico com ela ou se ela estava me dando mole ou se ela era desbocada e faria isso com qualquer pessoa que confiasse. Escolhi a terceira opção e fui pra o banheiro, enquanto liberava a passagem pra ela entrar no meu quarto e procurar os óculos e vestir a blusa no meu espelho.
E o furacão Cecília saiu da minha casa, não sem antes me abraçar mansinho e me agradecer pelo abrigo antes de entrar no taxi junto comigo, colocar os fones de ouvido e ouvir músicas aleatórias recostada em mim, enquanto eu contabilizava quantas paredes o tufão Cecília tinha reerguido em mim.