30 junho, 2013

Sobre escolhas de uma tarde aletaória

Há uma parte que diz que o "sim" é a resposta. Tem outra, um pouco maior que insiste que a resposta de três letras é "não". E essa segunda parte é tão sagaz que tem a audácia de arranjar um argumento: "quando você diz "sim" para o bom, está dizendo "não" para o melhor". E a parte que me manda dizer "sim", grita do outro lado: "mas é o "sim" que fará ela feliz". A metade do contra então replica:  "no momento, fará feliz, mas as consequências podem ser desastrosas. Para que arriscar?" E o outro lado insiste: "Se você não tentar, vai ficar com a dúvida para sempre aí dentro. Dúvidas matam. E as consequências também serão desastrosas". 

 "Dessa vez eu tive medo, mesmo assim eu disse "sim". Percebi o percevejo e deixei cravado em mim"

Junk food, eu disse "sim" para você, hahaha







30 abril, 2013

Pupilas dilatadas

Não sou eu, não posso acreditar que sou eu. É um bicho que toma conta, que engole  meu querer, que faz estragos qu dilata a alma, que me toma o corpo, que me escraviza e quem me faz querer ser sua.
Não é minha culpa, as palavras surgem, são ditas, são cuspidas, são escritas, as vezes saem gemidas, engatinham até chegar em quem me escuta, em quem me atenda, em quem me escute, em quem me aceite desse jeito.
Não é que eu possa, não é que eu deva, mas é que eu quero e o querer me toma e alimenta a fera que eu tenho dentro e quanto mais ela quer, mais ela me sufoca e ela sempre quer. Não sou eu, é ela.
Ela não é a mesma que eu, porque passa um tempo e eu estou esgotada e ela regozijada, porque sabe que me venceu. Quem vê, pensa que sou eu. Não, é ela. Serei culpada por não conseguir dominar ela. E ela conhece os meus passos, meus limites, minhas fraquezas, conhece tudo que eu mesma desconheço. É ela, essa peste, que assombra a alma, que tira todas as minhas forças, que me faz revirar na cama sem saber o que fazer. É esse monstro que toma conta dos meus gritos. Não sou eu, é ele.
É ele que me persegue e diz que eu sou indefesa, é ele que entra e dá pontapés gritando que tem urgencia em sair como se eu fosse uma mãe prestes a parir. É ele que muda meu humor, me faz chorar, me faz rir, me faz ser extremo e meio, me deixa em posição fetal de mãos e pés atados. Me tira o ar, o gás, a vontade de ir contra essa vida.
É com sangue que ela vai embora. É com dor, é com sacrfiício, é com corte, com arranhões, com pontadas, com gemidos abafados. É com suor que ele vai embora, é com trabalho, com peso, com pressa, com gritos de fúria, com sobrecarga, sobressaltos, sobretudo, esforço.

23 abril, 2013

(Dia 03) - Odds Ratio para Cecília


Odds ratio  “A razão de chances ou razão de possibilidades (em inglês: odds ratio; abreviatura O.R.) é definida como a razão entre a chance de um evento ocorrer em um grupo e a chance de ocorrer em outro grupo. A razão de chances precisa ser igual ou maior que zero”

Por exemplo, suponhamos que em 30 anos eu tenha conhecido 100 mulheres. Dessa amostra de 100 mulheres, 7 se interessaram por mim. 3 não contam, porque eu não correspondi. Me relacionei seriamente com 4 delas então, cheguei a noivar com a quarta. A chance de alguém se interessar por mim então é 7 para 100. A chance de alguém se interessar e eu corresponder é 4 para 100. A chance de dar certo é 0 para 100, porque nunca dá certo. Com Danúbia até dava, até ela dizer que ou eu tomava tendência ou ela ia embora e aí ela foi.  Tomar tendência não é como tomar chopp. Pra Danúbia, tomar tendência é conquistar o mundo de terno e gravata. E isso é pior do que café frio.
Cecília. Em 20 anos, Cecília conhece muito mais que 100 homens, as redes sociais apontam uns 360 pelo menos. Desses 360, uns 100 ela interagiu bastante.  Dos 100, 50 não houve empatia alguma. Dos 50, uns 30 quiseram ter algo com ela. 12 queriam sexo. 9 ela se apaixonou e não for correspondida. 9 se apaixonaram por ela e 6 desses foram correspondidos em algum momento da vida. 
Cecília tem 20 anos, mas a probabilidade de que alguém se apaixone por ela antes dela abrir a boca é 30 para 100, porque ela é bonita. Depois que ela abre a boca, o número de interessados continua sendo 30, mas a amostra se reduz a metade, porque ela perde contato, porque ela é nômade e não corre atrás dos outros. As chances então parecem que se tornam 30 para 50. Os cálculos indicam então, que a probabilidade de um cara se interessar por ela é maior do que a dela se interessar por ele e que as chances dela corresponder a alguém que já goste dela é maior do que alguém que ela gosta corresponder a ela. Por algum motivo, Cecília tem vários homens querendo ela – e eu já posso me incluir nessa lista – mas ela se interessa inicialmente pelos improváveis, porque Cecília gosta do ridículo e foge do comum.

Resultado do problema:
P(A) = 0,07 (essa é a probabilidade de uma mulher se interessar por mim)
P(B) =  0,6 (essa é a probabilidade de um homem se interessar por Cecília, o que mostra que ela pode ter o homem que quiser na universidade, fora dela, em qualquer lugar terá alguém para se apaixonar por ela)

A razão de chances então é igual a:  0,07/0,6

Cecília me põe no chinelo, quando o assunto é romance. Precisei calcular para ter certeza disso. E segundo os cálculos, nossa probabilidade de dar certo é ínfima.
E eu a desejo assim mesmo, contrariando todos os cálculos do mundo.

04 janeiro, 2013

Esclarecimentos

E eu devo abrir um espaço para escrever de novo.
Dessa vez pra um novo destinatário.
Não é  pra Alice, nem pra Papai, nem pra nenhuma nova paixão (não) correspondida
(se bem que eu poderia fazer milhões de cartas para Alice, Papai e para as paixões correspondidas ou não)
Dessa vez a carta é para mim mesma.
Para mim, Kath. Para mim, Catharina.
Sim, eu ainda sou um pouco de Catharina, mesmo não desejando. Mesmo vivendo a anos como Kath. Mesmo vivendo a anos na sombra de Alice.
Quando eu ainda era Catharina, quando ainda morávamos em outro lugar sem Papai e quando Alice quase nem se "manifestava", houve uma mudança nas pessoas, e essa mudança me afetou diretamente e eu fui levada a mudar algumas ações minhas. Sei que a carta é para mim mesma e que ninguém nunca terá acesso a ela, mas não mencionarei o que ocorreu. Isso me fez mudar, começando de lugar, depois de companhia para morar e por último de nome. Assim, encontro-me aqui nesse casebre, morando com Alice (que dispôs - se a vir atrás de mim quando soube que eu fugiria) e com Papai, e fingindo que Kath é meu nome. Kath significa "guerra" e Catharina significa algo relacionado a pureza, que era tudo que eu não tinha naquele momento.
Desde então, eu e Alice alternamos nossas vidas. Ninguém nunca me conhece por inteiro, nem Alice por inteiro. Ninguém que conhece Alice me conhece. Mesmo que eu me passe por Alice, as pessoas sempre acreditam que somos uma só pessoa. Sempre me pergunto se todos são tão tolos ao ponto de não observarem as notáveis diferenças dos dias que trocamos de lugar, ou se nós fingimos tão bem que ninguém nota as mudanças. Não sei.
E finalmente o motivo real dessa carta: eu não sei me perdoar. Mesmo que Alice tente me convencer toda noite de que já passou tudo, mesmo que Papai diga que tudo ficou pra trás e já pode ser esquecido, eu não consigo. E além disso, não perdoei os que me causaram isso. Não me desliguei totalmente deles. Ignoro esses dois fatos. Quando olho no espelho, sempre vejo uma Catharina amargurada, tentando sufocar uma Kath alegre. Não quero voltar atrás, só quero aprender a não mais odiar a Catharina que eu fui um dia. Só quero aprender a conviver com quem eu era.
Desde 2010.

06 setembro, 2012

Rabiscos de ontem - 1

Estou a uma pequena distância de um abismo. Tenho medo de ir.

Nesse tempo estou levemente desconcertada (se é que posso considerar um nível "leve" para o desconcerto da alma), completamente angustiada e por fim, desnorteada. Esse momento é um daqueles que eu costumo chamar de "momento bloqueio", em que eu restrinjo tudo e todos. A ordem que era "existir, contruir e sobreviver" tem se tornado "fugir, cair, sofrer, cair...". Imagino que esse é um bom indicativo que está na hora de entregar os pontos e ver a realidade, independente de qual seja ela. Estou caminhando para frente, mas lembra que estava a pouco espaço de um abismo? No momento estou a poucos passos de ver o fundo do "Abismo da Agonia". Se eu tivesse batizado esse abismo, ele se chamaria "Abismo da Agonia e Insegurança". Tem um redoma de vidro que está me rodeando, que acha que está me protegendo, mas ela está rachada nesse momento. Alguém me disse que ela era inquebrável, entretanto não é isso que percebo. Cada passo que eu dou me afasto do que eu chamava de "Bosque Encantado" - mesmo que ele não tivesse nenhum encanto a muito tempo. Venho pensando que sou muito complexa, que sou vasta, que sou grande, que não posso ficar restrita a essa estufa de vidro que me rodeia. Não consigo entrar em contato nem com meu inacabado próprio. Ela está rachada, isso é um consolo para mim. Só que eu sei que consolos não resolvem problemas, só amenizam eles até que você esqueça um pouco deles e pense em outra coisa. Tem quem goste de ser consolado, tem quem goste dos paliativos. Eu não. Eu gosto de resoluções. Ser consolada no ponto em que eu me encontro nada resolve. Minha respiração já está ofegante de andar em direção ao vácuo. Quanto mais eu ando, mais a rachadura aumenta. Começo a notar gotas caindo. Seria chuva? Tem uma placa escrito "Vida", eu acho. Não consigo ler direito, as gotas embaçam tudo a minha frente. Tenho que me apressar, tenho um prazo a cumprir. A felicidade tem data e hora pra ocorrer, dizem que é depois do fim da caminhada. E a única coisa que eu ainda sei da caminhada é que no fim tem um abismo. E o fim está próximo. 

(...)

Estar sozinha nesse momento faz toda a diferença. Essa redoma precisa ser quebrada, porém essa tarefa é minha. Não, não me ofereça ajuda. Não estar presa a ninguém é importante para que eu ande mais rápido. Ouço o vidro trincando, acho que ele não foi feito para lugares de solo rochoso como esse que eu estou agora. Lá fora é quente. Aqui dentro tem um gelo derretendo, enchendo a redoma de água. Continuo sem ver para onde vou, mas sinto que estou perto. Sinto meu desespero me chamando, consigo ouvi-lo claramente. O som vem de baixo, já devo estar perto do abismo. Quebra, redoma! Vou arriscar. Coloco o pé. Não tem nada embaixo, já sei que é aqui mesmo o lugar onde devo estar, cheguei no Abismo da Agonia. Não sinto mais nada embaixo dos meus pés, tem um vento gelado passando e eu perdi a coragem de abrir meus olhos. Não vou gritar. Ouço um estrondo. Meu rosto toca o chão. Não foi minha queda que fez o barulho, ouvi antes. Não consigo me mexer. Seria isso a tal felicidade que todos buscam? Abro os olhos. Ao meu redor vários estilhaços de vidro. Um último cai tilintando perto de mim. Sorrio ao ver a redoma em cacos. Estou livre. Dever cumprido. Posso parar de sentir. E acordar. Então, fecho os olhos, de novo.

Adaptação de um texto meu de 2007 que eu achei num caderno perdido aqui em casa


27 junho, 2012

Cansada demais até para pensar num título


Porque as vezes vem uma exaustão do peso do otimismo. Sim, porque pensar que as coisas vão melhorar, que todos gostam de você, que a calça tamanho 38 vai caber, que a criança da esquina não vai virar traficante em alguns anos, que algumas das pessoas que te cercam todos os dias são altamente confiáveis, que o pão ainda pode chegar quentinho em casa, que o vizinho vai sair de casa e não será assaltado, que os cachorros abandonados na rua não serão chutados por algum desalmado, não, não é fácil. Principalmente quando você vê o oposto de tudo isso: as coisas tendendo a piorar. A hipocrisia das pessoas que enchem a boca para falar do amor que sentem pelo próximo, mas na primeira oportunidade que tem se fazem de surdas para os problemas alheios; a calça 40 é a única que serve da loja inteira; ninguém apostava nada na criança da esquina que passa os dias brincando na rua e a única pessoa que apostou todas as fichas nela foi aquele rapaz que distribuía doces para a garotada e que agora dá dinheiro para ele ficar observando o movimento do local, com a promessa que um dia ele vai ser igualzinho ao herói da comunidade; o pão da padaria continua ruim e frio, sempre é o de ontem que sobrou por lá, porque falta prazer nas mãos daquele que amassa a massa; o vizinho saiu de casa e não foi assaltado, mas chutou o “cachorro idiota que não pára de latir” da porta da casa dele, sem nem ao menos ter o cuidado de olhar a razão daquilo tudo: um pequeno prego semi enfiado na pata do pobre bicho; e claro, o vizinho não foi assaltado, mas o pai dele foi, quando estava saindo do banco. É difícil acreditar no melhor quando tudo caminha na direção contrária. Não estou achando que porque tudo diz “não” deve –se desacreditar na humanidade, em mim, ou nada disso. Só queria deixar claro que estou cansada de carregar esse peso do otimismo sozinho e que eu já estou ficando com dores na coluna. E no fim das contas esse desabafo nem é para contar dessas dores e sim para deixar claro que eu não tenho mais disposição para fingir que elas não existem. 

"Os olhos mentem dia e noite a dor da gente"
(Teatro Mágico)